sábado, 22 de outubro de 2011

Teoria das janelas quebradas ou "Tolerância Zero"


Aí está um dos segredos da coisa. Em 1969, na Universidade de Stanford (EUA), o Prof. Phillip Zimbardo realizou uma experiência de psicologia social. Deixou dois automóveis abandonados na via pública; dois automóveis idênticos, da mesma marca, modelo e até cor. Um deixado no Bronx, na altura uma zona pobre e conflituosa de Nova York e o outro em Palo Alto, uma zona rica e tranqüila da Califórnia.

Dois automóveis idênticos, abandonados em dois bairros com populações muito diferentes e uma equipe de especialistas em psicologia social estudando as condutas das pessoas em cada lugar.
Resultou que o automóvel abandonado no Bronx começou a ser vandalizado em poucas horas. Perdeu as janelas, o motor, os espelhos, o rádio, etc. Levaram tudo o que fosse aproveitável e aquilo que não puderam levar, destruíram. Contrariamente, o automóvel abandonado em Palo Alto manteve-se intacto.
É comum atribuir à pobreza as causas de delito. Atribuição em que coincidem as posições ideológicas mais conservadoras, (da direita e esquerda). Contudo, a experiência em questão não terminou aí, quando o automóvel abandonado no Bronx já estava desfeito e o de Palo Alto estava a uma semana impecável, os investigadores partiram um vidro do automóvel de Palo Alto.

O resultado foi que se desencadeou o mesmo processo que o do Bronx, e o roubo, a violência e o vandalismo reduziram o veículo ao mesmo estado que o do bairro pobre. Por quê que o vidro partido na viatura abandonada num bairro supostamente seguro, é capaz de disparar todo um processo delituoso?
Não se trata de pobreza. Evidentemente é algo que tem a ver com a psicologia humana e com as relações sociais.
Um vidro partido num automóvel abandonado transmite uma idéia de deterioração, de desinteresse, de despreocupação que vai quebrar os códigos de convivência, como de ausência de lei, de normas, de regras, como que vale tudo. Cada novo ataque que o automóvel sofre reafirma e multiplica essa idéia, até que a escalada de atos cada vez piores, se torna incontrolável, desembocando numa violência irracional.
Em experiências posteriores (James Q. Wilson e George Kelling), desenvolveram a 'Teoria das Janelas Partidas', a mesma que de um ponto de vista criminalístico, conclui que o delito é maior nas zonas onde o descuido, a sujeira, a desordem e o maltrato são maiores.

Se se quebra um vidro de uma janela de um edifício e ninguém o conserta, muito rapidamente estarão quebrados todos os demais. Se uma comunidade exibe sinais de deterioração e isto parece não importar a ninguém, então ali se gerará o delito.
Se se cometem 'pequenas faltas' (estacionar-se em lugar proibido, exceder o limite de velocidade ou passar-se um semáforo vermelho) e as mesmas não são punidas, então começam as faltas maiores e logo delitos cada vez mais graves. Se se permitem atitudes violentas como algo normal no desenvolvimento das crianças, o padrão de desenvolvimento será de maior violência quando estas pessoas forem adultas.
Se os parques e outros espaços públicos deteriorados são progressivamente abandonados pela maioria das pessoas (que deixa de sair das suas casas por temor aos gangs), estes mesmos espaços abandonados pelas pessoas são progressivamente ocupados pelos delinqüentes.
A *Teoria das Janelas Partidas*foi aplicada pela primeira vez em meados da década de 80 no metrô de Nova York, o qual se havia convertido no ponto mais perigoso da cidade. Começou-se por combater as pequenas transgressões: grafites deteriorando o lugar, sujeira das estações, alcoolismo entre o público, evasões ao pagamento de passagem, pequenos roubos e desordens. Os resultados foram evidentes. Começando pelo pequeno delito, conseguiu-se fazer do metrô um lugar seguro.

Posteriormente, em 1994, Rudolph Giuliani, o prefeito de Nova York, baseado na Teoria das Janelas Partidas e na experiência do metrô, impulsionou uma política de 'Tolerância Zero'. A estratégia consistia em criar comunidades limpas e ordenadas, não permitindo transgressões à Lei e às normas de convivência urbana.
O resultado prático foi uma enorme redução de todos os índices criminais da cidade de Nova York. A expressão 'Tolerância Zero' soa como uma espécie de solução autoritária e repressiva, mas o seu conceito principal é muito mais a prevenção e promoção de condições sociais de segurança.
Não se trata de linchar o delinqüente, nem da prepotência da polícia. De fato, a respeito dos abusos de autoridade, deve-se também aplicar a tolerância zero. Não é tolerância zero em relação à pessoa que comete o delito, mas tolerância zero em relação ao próprio delito. Trata-se de criar comunidades limpas, ordenadas, respeitosas da lei e dos códigos básicos da convivência social humana.

8 comentários:

  1. Caro Miguel

    Vou aqui deitar algumas achas para a discussão.
    O suposto êxito de Giulianni é amplamente desmontado por Steven D. Levitt no seu livro Freaknomiks (http://criticanarede.com/lds_freak.html). Como podes concluír do extracto da recensão do livro que reproduzo abaixo, a "teoria dos vidros partidos" do Zimbardo, não explica porque durante toda a década de 90 do Séc. XX o crime diminuíu de uma forma geral em todo os estados dos EUA e não só em New York.
    "Um dos lados escondidos que nos é revelado é a relação entre a aprovação precoce de leis de despenalização do aborto nos EUA e a redução da criminalidade. Para isso, o trabalho do Mayor de Nova Iorque, Rudolph Giuliani, contribuiu menos do que a sentença do juiz Harry Blackmun do Supremo Tribunal de Justiça dos EUA em 22 de Janeiro de 1973, que na prática legalizou o aborto em todo os estados dos EUA. O município de Nova Iorque obviamente contribuiu para o controle e prevenção do crime. A aplicação do princípio das janelas partidas, a proibição dos lavadores de pára-brisas nos semáforos, o reforço do policiamento, entre outras medidas activas, certamente criou condições menos adequadas ao desenvolvimento das actividades criminosas e dos delitos graves. Mas a decisão do supremo tribunal de justiça contribuiu muito mais. Ao permitir às mulheres que não queriam ter os seus filhos a possibilidade de abortar em condições de segurança e higiene normalmente garantidas pelos hospitais comuns no início dos anos 70 do séc. XX, veio impedir o nascimento de toda uma geração de potenciais criminosos, que por não serem desejados, ou por não poderem vir a gozar de condições de ensino e ambientes familiares adequados, certamente viriam na sua grande maioria a sê-lo efectivamente. Assim, a justiça e a demografia encarregam-se de explicar em grande medida, por que razão o crime nos EUA diminuiu drasticamente durante a década de 90 do séc. XX. Com ou sem Giuliani, com ou sem janelas partidas, o crime nos EUA teria sempre diminuído durante os anos 90, simplesmente porque os "criminosos" não nasceram 20 anos antes."

    Por outro lado a "tolerancia Zero" por mais apelativa que seja, não deixa de ser bastante demagógica, pois o "Zero" aplica-se sempre aos grupos mais desprotegidos, enquanto que a tolerância acaba por beneficiar os outros, aqueles que são "mais iguais". Tomada à letra abre descaradamente a porta aos fundamentalismos e às ditaduras.

    Abraços
    fc

    ResponderEliminar
  2. Obrigado pelo comentário, eu conheço bem o capitulo 4 do Freakonomics, pois fotocopiei-o e ofereci-o a alguns amigos aquando do referendo sobre a IVG.

    Repara no entanto que tu dedicas o teu comentário a desconstruir dois axiomas da teoria da janelas quebradas, mas não pões em causa a ideia base.

    Essa tem a ver com a falsa ideia que nos bairros ricos as pessoas não fazem as mesmas coisas que nos bairros pobres. Obviamente se não o fazem é só por uma questão de falta de oportunidade porque os muros são bem mais altos e não porque o seu nível de educação seja assim tão diferente.

    Também por isso não raras vezes encontramos pessoas educadas em bairros modestos e gente ordinária a morar atrás de muros altos e a conduzir bentleys ou rolls-royces.

    Quanto à tolerância zero, penso que confundes autoridade com autoritarismo, mas face à actual fraqueza da nossa Democracia, não tenho argumentos para te contrapor.

    ResponderEliminar
  3. Já agora espero que a aprovação da IVG, em 2007 nos permitam renovar a classe politica lá para 2040...

    ResponderEliminar
  4. À LUZ dessa teoria, o que se passará com uma sociedade, uma civilização e uma humanidade cheia de vidros, janelas, portas, lares e comunidades "partidas" pelo insistente "vandalismo" da perseguição de sonhos de crescimento infinito num planeta finito?

    Como e onde aplicar a TOLERÂNCIA ZERO?

    ResponderEliminar
  5. Olá Miguel

    Faço meu o teu voto.

    Claro que não ponho em causa nem a Experiência nem as conclusões da experiência do Zimbardo. Só se fosse acéfalo. O trabalho desse senhor está muito bem documentado e comprovado e é graças a ele (e outros poucos como ele) que a Psicologia ainda sobrevive. Se bem que talvez estajamos mais na área da sociologia e comportamentos de grupo, do que propriamente na Psicologia, que tem vindo a ser desmontada pelo trabalho paulatino do António Damásio.

    Quanto à questão do Autoritarismo, não estou a confundir nada. A Tolerancia Zero é um exercício demagógico em qualquer lado. Deixa-me recordar o Sócrates a fumar no avião fretado na TAP e a justificar-se que não sabia que a lei que havia aprovado se aplicava também nos aviões...!!!
    Acredito muito mais na formação e informação cívica que impeça as pessoas de dormir quando violam os principios cívicos da cidadania democrática.
    Podes ver um exemplo do que quero dizer aqui:
    How Bank of America Covered Up Fraud by Silencing Whistleblowers (http://www.alternet.org/story/152723/how_bank_of_america_covered_up_fraud_by_silencing_whistleblowers?akid=7746.52755.Kxbuml&rd=1&t=30)

    ResponderEliminar
  6. Gostei do post e seguintes comentários.

    O fenómeno da degradação progressiva é natural e muito comum, que as nossas democracias "desvalorizam".

    Existe também o facto de vivermos em geral como um conjunto indivíduos tolerantes, regrados por "protocolos sociais" vs Comunidade de famílias.

    Ainda há quem acredite na teoria do "bom selvagem". Ora eu não!

    "A ocasião faz o ladrão". Gente com mais ou menos dinheiro pode ter aparência mais sofisticada, mas a natureza humana triunfa geralmente sobre quem não se dignou a conhece-la e domina-la, e mesmo esses, fazem apenas o melhor que conseguem.

    Uma coisa que me custa é que um tipo qualquer que siga religiosamente "os princípios cívicos da cidadania democrática", pode ser na prática um tremendo "filho da truta", mas é tratado cordialmente por ser "respeitável". Isto é notório entre políticos e advogados, mas está presente em todo lado.

    Valores vs Lei, isto sim é uma boa questão!

    ResponderEliminar
  7. Grato pelo texto. Tenho duas perguntas: 1. Vi que quem publicou o texto neste blog foi o Carlos Miguel Souza, mas quem é o autor do texto, é o Carlos Miguel Souza também? 2. Quem é o autor da frase: " Quando o vento sopra forte, uns abrigam-se e outros constroem moinhos." ? Quero publicar ambas as pérolas, porém com as autorias. No aguardo. Grato desde já. Um fraterno abraço, Ivson Galvão.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Não é fácil identificar se os sites de onde o texto foi retirado são as suas fontes originais, contudo foi de um dos dois sites cujas ligações se encontram no texto.

      Em relação à frase que serve de lema a este blog, trata-se de um provérbio chinês.

      Nota: Em Souza onde está um Z deve estar um S. :)

      Disponha sempre. Abraço.

      Eliminar