quarta-feira, 9 de outubro de 2013

A linhagem Rosthschild

No início do século XIX, os herdeiros do dono de uma casa de câmbio em Frankfurt mostraram a um dos maiores génios militares da história que sem poderio financeiro não há artilharia suficiente para vencer guerras.
A melhor altura para comprar é quando há sangue nas ruas”. O autor da frase, Nathan Rothschild, devia saber do que falava, já que ajudou a construir um império financeiro alicerçado no sangue derramado na Europa pelas guerras napoleónicas do fi nal do século XVIII e início do século XIX. E ainda hoje a máxima do Barão de Rothschild é aplicada por alguns investidores para fazerem milhões.

No final do século XVIII, grande parte da Europa tremia ao ouvir este nome: Napoleão. A campanha conquistadora deste génio militar provocou o medo nos homens mais ricos da altura. Não só temiam ver as suas fortunas transformadas em despojos de guerra mas também, principalmente para aqueles que adoravam mais a vida que o dinheiro, o terror de serem esquartejados pelas baionetas dos soldados de Napoleão.

Um desses homens que queria preservar tanto a sua riqueza como a sua vida era Guilherme I, Eleitor de Hesse, que governava um território perto de Frankfurt e, dizia-se, era um dos aristocratas mais ricos da Europa. Numa primeira fase tentou ocultar os seus bens para que não acabassem nas mãos do Júlio César do século XVIII, contando com a astúcia e a perspicácia de Mayer Amschel Rothschild, que tentava transformar a casa de câmbio que herdara numa entidade fi nanceira poderosa. Mais tarde, Guilherme I exilou-se e deixou os seus bens nas mãos do fundador da poderosa dinastia Rothschild, que dura até aos dias de hoje e tem ramifi cações por todo o mundo, incluindo Portugal.

O xeque-mate a Napoleão


Napoleão até podia ser um dos maiores génios militares da História. Mas não há exército que resista ao poderio financeiro. E Mayer Rothschild revelou-se um estratega fi nanceiro capaz de causar estragos nas fi leiras de uma das maiores máquinas de guerra de sempre. Mas, mais importante ainda, conseguiu aumentar a fortuna à medida que o sangue tingia os campos de batalha pela Europa.

Mayer espalhou quatro dos cinco fi lhos pelos maiores centros fi nanceiros e de poder europeus (Londres, Nápoles, Paris, Frankfurt e Viena). E com a experiência adquirida em ocultar os bens de Guilherme I, criou uma rede logística no Velho Continente para que se conseguisse fazer circular bens pela Europa, como ouro e obras de arte, de maneira a que estes não fossem apanhados pelas tropas francesas. Mas a grande mais-valia deste entreposto logístico residia noutro factor, o poder da informação. Como dizia um dos aliados dos Rothschild, o Duque de Wellington, “tudo o que importa na guerra, aliás, tudo o que importa na vida, é esforçarmo-nos por descobrir o que não sabemos com aquilo que fazemos”. E aquilo que os Rothschild faziam permitiu-lhes saber o que outros não sabiam, dando-lhes enorme vantagem e reconhecimento nos mercados fi nanceiros.

Mas antes de se avançar com o golpe que permitiu colocar em prática a máxima de que é quando o sangue corre pelas ruas que os negócios se fazem, convém explicar porque se trouxe Arthur Wellesley, o Duque de Wellington, para esta história. O militar inglês andou anos a brincar ao jogo do gato e do rato com Napoleão, que com as suas ambições imperialistas havia sido considerado um alvo a abater por essa Europa fora. Mas já desde os tempos remotos que se sabe que quando se quer fazer guerra há que ter dinheiro. E foram os Rothschild que fi nanciaram Inglaterra nas campanhas contra Bonaparte, nomeadamente na defesa de Portugal durantes as Invasões Napoleónicas. Além disso, utilizaram a sua rede logística para entregar fundos da Coroa Inglesa aos estados aliados na guerra contra o temível francês.

A estratégia de fi nanciamento para derrotar Bonaparte iniciara-se, segundo alguns historiadores, sob as ordens do tal Guilherme I que, preocupado com os seus bens, queria evitar que o francês reinasse sobre toda a Europa. O patriarca dos Rothschild deu seguimento a esta táctica, contando com o contributo decisivo do fi lho que destacara para Londres, Nathan Rothschild, o tal que sabia como fazer dinheiro quando houvesse sangue nas ruas.

Além do sangue nas ruas, o dinheiro faz-se com influência e informação
Sangue foi o que não faltou no Junho chuvoso de 1815. Na última tentativa de se reerguer da humilhação na Rússia e do exílio em Santa Helena, Napoleão jogou as cartas todas em Waterloo, perto de Bruxelas. Do lado oposto estavam os aliados ingleses e prussos liderados por Wellesley. O futuro do continente e da bolsa londrina jogava-se naquele embate em terreno encharcado, iniciado a 18 de Junho, um Domingo.

Entretanto, reza a lenda, nos dias seguintes à batalha, o tal que sabia como fazer dinheiro quando houvesse sangue nas ruas, começou a vender dívida inglesa. Com a ausência de notícias vindas do campo de batalha, o mercado interpretou a decisão de Nathan como se o Rothschild soubesse qual tinha sido o desfecho de Waterloo e começou também a desfazer- se dos títulos. Segundo alguns especialistas, Nathan soube com antecedência qual o resultado da batalha, graças à sua rede de agentes que palmilhava a Europa para entregar bens e reunir informações. Após a queda do mercado e já com os preços deprimidos, Nathan começou a comprar e, seis dias após a batalha de Waterloo, chegou a Londres o emissário do Duque de Wellington a dar a notícia de que o temível Napoleão havia sido derrotado.

O resultado da sangrenta batalha, que provocou 51 mil baixas (entre mortos, feridos e desaparecidos) no exército de Bonaparte e 24 mil nas fileiras dos aliados, deu um grande impulso ao mercado londrino. E poderá ter sido uma das maiores jogadas na História dos mercados fi nanceiros, aumentando exponencialmente a fortuna dos Rothschild. Apesar desta versão, há alguns investigadores a argumentar que Nathan não lucrou com Waterloo e que, na verdade, a sua fortuna correu riscos signifi cativos com a possibilidade de Inglaterra sair derrotada, já que era um dos maiores credores da Coroa e veria os seus investimentos perder valor com uma derrota do Duque de Wellington.

Com a fortuna e a infl uência a subirem em fl echa, os Rothschild montaram um dos primeiros bancos de investimento globais. Rapidamente se tornaram nos principais fi nanciadores dos Estados europeus, espalhando o seu negócio por todo o Velho Continente. Foi esta família de banqueiros que fi nanciou a Coroa Inglesa para a compra do estratégico Canal do Suez. Estiveram ainda na fundação de empresas como a De Beers, que ainda hoje detém o monopólio de diamantes, e da Rio Tinto, que continua actualmente a ser uma das gigantes do sector mineiro. Compraram minas na América, onde abriram sucursais, e na Península Ibérica. Foram uns dos maiores fi nanciadores do fôlego industrial de fi nal do século XIX e não deixaram escapar a oportunidade do ouro negro, ao investir nos campos petrolíferos russos.

Usaram o seu dinheiro para incentivar a construção de caminhos-de-ferro, do metro de Londres e de um túnel que ligasse França a Inglaterra. Toda esta infl uência levou mesmo os Rothschild a ter o poder de emitir moeda em Inglaterra e a serem a entidade responsável por fi xar o preço do ouro. E ao mesmo tempo que a sua infl uência fi nanceira junto de estados soberanos aumentava, os Rothschild lançavam também elementos da sua família na política inglesa e francesa. Todo este poder levou a que surgissem teorias sobre o papel dos Rothschild no controlo da economia mundial e da infl uência para coagir os estados a tomar posições benéfi - cas para os seus interesses, assim como de conseguirem promover a guerra e a paz.

Entretanto, dos negócios iniciados pelos fi lhos de Mayer Amschel Rothschild, a operação em Nápoles acabaria por encerrar. Também em Frankfurt a falta de herdeiros levaria ao fecho da casa que serviu para o império Rothschild como Roma para o Império Romano. O poder da família tinha como epicentro Londres e Paris.

O judaísmo, o desentendimento e a ligação a Portugal 
Apesar da riqueza existiam questões fracturantes entre a família Rothschild. Uma delas era se o clã devia ou não usar a fortuna para instituir a Terra Prometida da sua religião, o judaísmo. Um dos Rothschild mais empenhados nesta demanda foi Edmond James de Rothschild, fi lho do fundador do negócio da família em Paris. No século XIX fi nanciou os primeiros colonatos judeus na Palestina, lançando bases decisivas para a criação do que viria a ser o Estado de Israel. Os esforços de Edmond valeram-lhe mesmo o epíteto de Pai de Israel. O incentivo à criação de um Estado judaico na Palestina continuou a ser incentivado pelos descendentes de Edmond James. E um dos seus fi lhos, Maurice, protagonizou a querela com maiores consequências na história do clã no final da década de 30 do século XX. Discordando do rumo dos negócios da família, saiu do grupo Rothschild para se estabelecer por conta própria, mas não teve muito tempo para colocar as suas ideias em prática devido à ascensão de Hitler.

Mesmo tendo conseguido levar a melhor sobre Napoleão, os Rothschild não resistiram incólumes à cavalgada diabólica de Hitler pela Europa. O regime nazi confi scou os bens dos Rothschild na Áustria, levando ao encerramento da operação da família em Viena. E a associação de Maurice de Rothschild à estrela de David e à resistência francesa, levaram-no a recorrer ao cônsul português de Bordéus, Aristides Sousa Mendes, para conseguir um visto que o tirasse de terreno mortífero. Maurice era senador francês e foi um dos poucos a opor-se ao Regime de Vichy do general Petain, que fez a paz com Hitler, e congeminou a criação de um foco de resistência francês em Londres caso a Gália sucumbisse totalmente aos Panzers alemães.

Graças aos vistos concedidos por Aristides, Maurice e outros sete elementos da família Rothschild conseguiram fugir para Portugal e escapar às perseguições nazis. Após a II Guerra Mundial, o fi lho de Maurice, Edmond Jacques, aproveitou várias heranças para criar uma entidade fi nanceira na Suíça que ainda hoje é independente do Grupo Rothschild, o Edmond de Rothschild Group, que tem, desde 2000, escritórios em Portugal.

Além do escritório em Lisboa, as entidades ligadas aos Rothschild estiveram activas no processo de privatizações portuguesas nas décadas de 80 e 90 e continuam a ser assessores fi nanceiros em operações no mercado de capitais nacionais. A entrada em bolsa da REN, por exemplo, teve o grupo Rothschild como um dos bancos de investimento a montar a operação. E, mais recentemente, a entidade esteve presente na avaliação dos activos da Cimpor e no cálculo das necessidades de capital dos bancos portugueses. Outras das grandes áreas de actividade do clã são a arte e os vinhos. Os Rothschild já foram proprietários da Quinta do Carmo, de onde sai o vinho Bacalhoa, que foi comprada há poucos anos por Joe Berardo.

O grupo Rothschild, que vai na sétima geração de banqueiros, continua a manter a sua infl uência nos dias de hoje e ainda tenta recuperar de um dos maiores reveses que sofreu na sua história. Apesar de terem derrotado Napoleão e sobrevivido a Hitler, o negócio original do clã sofreu os maiores estragos em 1983, quando o Presidente francês, François Mitterrand, nacionalizou o Banco de Rothschild. Três anos depois, a família tentou reerguer-se das cinzas, fundando o Rothschild & Cie Banque, que deu origem ao grupo actual.

E apesar de actualmente não terem o poderio e o mediatismo de gigantes norte-americanos, como o Goldman Sachs e o JP Morgan, ainda são capazes de fazer jogadas de mestre nos mercados. Em 2008, ano em que a falência do Lehman Brothers colocou os maiores bancos de investimento do mundo a lutar pela sobrevivência, a empresa-mãe do grupo Rothschild, a Paris Orléans, conseguiu lucrar 76 milhões de euros, assentes na sua actividade na banca de investimento, gestão de activos e banca privada.
(artigo publicado na revista Fora de Série com a edição de 4 de Outubro do Diário Económico)

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